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Contextualização Histórica

Silves 1189: A Conquista

Estamos no dia 20 de julho do ano de 1189. Do alto na nossa alcáçova observamos, muito ao longe, em local de onde certamente se avista o mar, mais de trinta naus. Parece-nos ser a terceira cruzada, de que tivemos notícia se deslocaria para a Terra Santa. Devem preparar-se para nos atacar. Os Cristãos vão tentar tomar a cidade. Valha-nos Alá!

O rio Arade está adoentado e em frente à cidade mostra já pouco fundo, não vão conseguir chegar aqui naqueles barcos de tão grande calado. Mas atenção, que chegam forças por terra, parece que já ultrapassaram a muralha da cidade baixa. Não vamos capitular, jamais conseguirão entrar na cidade alta pois as nossas muralhas são potentes e inexpugnáveis.

Hoje, Silves amanheceu calma, temos a cavalaria cristã estacionada na parte poente da cidade mas vemos muita movimentação na zona ribeirinha. Parece que trabalham em máquinas de guerra e já ontem tentaram minar a couraça. Esperemos que não a destruam, pois ficaremos sem abastecimento de água.

O sol já vai alto e a labuta dos cristãos não pára. Há pouco atingiram o nosso muezzin que, do alto do minarete da mesquita do arrabalde, chamava para a oração do meio-dia. Que crueldade! O povo continua a sua rotina mas está muito preocupado. As mães já não permitem que os filhos se desloquem à madraza para a aprendizagem das letras e do Corão. Estão em casa, amedrontados, e os mantimentos já começam a escassear nos mercados. Que Alá nos ajude.

Há dezoito dias que as tropas cristãs nos cercam, há fome e, alguns dos nossos, os mais frágeis, já pereceram. Não conseguimos levá-los à sua morada final pois os cemitérios estão fora de portas e não conseguimos aceder-lhes. Temos de enterrar os nossos entes queridos no interior da cidade. Ontem, quando o sol já se punha, conseguiram deitar a baixo a nossa couraça pelo que a água já não chega à medina. Resta-nos o que armazenam as nossas cisternas e os nossos poços. Começamos a temer o pior.

Estamos desalentados, as máquinas de guerra provocaram grandes rombos nas muralhas e alguns elementos do exército inimigo tentam trespassá-la mas estamos a ripostar com todas as nossas forças e a graça de Deus. Ainda não está tudo perdido!

Estamos no dia 3 de Setembro, o dia nasceu solarengo mas os nossos corações estão cinzentos e sem alegria. O medo e a doença apoderaram-se do nosso povo. Muitos de nós morreram, pois os mantimentos já não existem e quem sobreviveu está doente e sem ânimo. Parece que não teremos alternativa à rendição. Vamos tentar negociar com D. Sancho I alguma benevolência para com o nosso povo.

Que nos deixem viver na nossa amada XILB ainda que sob o seu domínio. Amamos a nossa cidade, cidade próspera, terrenos férteis e campos repletos de árvores frondosas, mercados bem abastecidos, porto dinâmico e fácil acesso aos mares. Mares por onde circulam produtos e ideias. Terra de poetas, terra de cultura, terra de homens e mulheres trabalhadoras, terra próspera e bela.

O sol continuará a brilhar nesta terra, hoje e sempre, seja qual for a ideologia e a religião.