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Contexto Histórico

Um dia na História

O sol está quase no zénite e o velho Al-Muezzin sobe com esforço as escadas que o levam ao topo do grande minarete da Xilb, de onde chamará para a oração do meio-dia. Em baixo, junto do minbar, o Iman prepara-se para o grande sermão semanal. O Al-Faqih acaba de entrar. Esta tarde a mesquita também será palco de uma importante sessão judicial (problemas de saneamento, como é habitual, ninguém gosta que os vizinhos atirem as águas sujas para a sua porta...).

Estamos em 1147 e é sexta-feira. Ali ao lado, na Madraza, os jovens estudantes arrumam as páginas soltas do Corão. Estiveram toda a manhã a recitá-lo e a treinar uma nova caligrafia que o mestre, recém-chegado da peregrinação a Meca, ali aprendeu. O reputado botânico da cidade, que mora perto, exibe ao nosso Ulema mais respeitado, as suas últimas experimentações agronómicas. Anda a tentar transformar morangos silvestres em algo comestível. Para isso até encomendou um vaso especial a um dos oleiros mais afamados da cidade, aquele que tem a sua olaria na meia encosta, do lado de onde se põe o sol. Passa à sua porta um poeta que chegou recentemente a Xilb, vindo de Al-Ushbuna, cidade há alguns dias desafortunadamente conquistada pelos cristãos, e é-lhe oferecido um suculento exemplar do fruto rubro, que o poeta experimenta tentando disfarçar uma careta, tal não é a acidez. A coisa ainda não está no ponto. Os três dirigem-se juntos para a mesquita que se mostra já muito preenchida. Qualquer dia teremos de pensar em construir uma nova aljama que esta já não comporta tanta gente.

O burburinho dos vendedores ainda se ouve no Suq. Ali, o Almotacé repreende o vendedor de figos, que tem a balança mal calibrada: não vale roubar, diz-lhe com ar de quem não tolerará uma recaída. Cabe-lhe regular o mercado e disciplinar os transeuntes. Aí marcam presença os camponeses que trabalham a terra fértil das cercanias da cidade mas também os pescadores, os talhantes, os padeiros, os marceneiros, os curtidores de peles, as tecedeiras, os oleiros, os vendedores de esparta e, até, o barbeiro, o advogado e o dentista. O velho aguadeiro é presença assídua e hoje distribui água sem cobrar. É assim nos dias sagrados. Diz que é a sua Zakat.

Do Hamman saem dois músicos, eram os últimos clientes e, atrás de si, encerram-se as portas daquele que é um dos espaços da urbe mais apreciados e concorridos.

Daqui da cidade alta já não se ouvem os Al-banni que trabalham na construção da imponente muralha que cercará o extenso arrabalde junto ao nosso belo rio. Também já não se ouvem os sons ritmados das serras e dos martelos, que nos grandes estaleiros navais são empunhados por quem ali constrói as embarcações que, desde o Arade, atingem as águas calmas do mar que um dia levará, cada um de nós, rumo ao Oriente. Uns e outros estão agora a fazer as suas abluções e em breve trespassarão a majestosa porta da cidade em direcção à mesquita.

Apressado vem o coveiro desde a Maqbara do Arrabalde Oriental, onde acabou de deixar um grupo de carpideiras que teimam em cirandar por ali. Se o Almotacé sabe fará queixa ao Al-Faqih, ou agirá por conta própria, não é pessoa que tolere atropelos ao que postula o Kitab sagrado.

Desculpem, ainda não me apresentei, sou o Vizir desta importante, bela e esplendorosa cidade e tenho de me apressar. É sexta-feira, quase meio-dia e, na grande mesquita, o sermão vai começar.

 

GLOSSÁRIO


 

Al-Muezzin (Chama para a oração) | Xilb (Silves) | Minbar (púlpito da mesquita) |Iman (encarregado do sermão) | Al-Faqih (juíz) | Madraza (escola corânica) | Ulema (sábio) | Al- Ushbuna (Lisboa) | Suq (mercado) | Almotacé (fiscal do mercado) | Zakat (esmola imposta pelo Corão| Hamman (banhos públicos) | Al-banni (pedreiros) | Abluções (higienização do corpo antes das rezas) | Maqbara (cemitério) | Kitab (livro) | Vizir (governador/ministro)