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Contextualização Histórica

Xilb e os Vikings

Estamos no ano de 844 e, vinda dos seus estaleiros de construção naval é lançada ao rio da bela cidade de Xilb, uma embarcação que ali fora construída pelo mais ilustre dos mestres, com recurso a avançadas técnicas de marear. O cuidado posto na sua ornamentação mostra bem a nobreza do seu propósito. Hoje mesmo, nela embarcará o mais hábil dos diplomatas que o al-Andalus já conheceu.
É, de todos sabido, que os Majus (Vikings), não largam a nossa costa e que em Córdova o emir está preocupado. Ainda há poucos dias oitenta potentes embarcações se aproximaram da cidade de Lisboa deixando em pânico as populações. Mais para oriente, cidades como Sevilha e Cádis já foram atacadas e saqueadas, tendo a primeira permanecido sob o domínio normando por cerca de um mês, findo o qual foi recuperada e, os do Norte, rechaçados. A instabilidade vivida e a ameaça constante tornam-se insustentáveis pelo que o rei dos normandos veio propor a paz e o nosso Abd al-Rahman II ordenou que a mesma fosse negociada.
Para o desenlace de tão importante missão é escolhido Yahya b. Ḥakam al-Bakrī, poeta e hábil diplomata, melhor conhecido por Al-Gazalī (A Gazela), não só pela sua reconhecida formosura mas também por ser dotado de subtileza, audácia, coragem, perseverança, habilidade para a réplica clara e contundente e facilidade em entrar e sair por qualquer porta. Este faz-se acompanhar de Yahya b. Habīb e, juntos, são portadores de uma resposta à petição do rei normando e de um presente para retribuir o que havia sido ofertado por aquele monarca.
A nossa cidade, por possuir arsenais que trabalham com o melhor madeirame, riqueza obtida na nossa serra; e um porto de águas calmas que nos levam até ao mar, não muito distante, foi escolhida pelo emir para embarque de Al-Gazalī. Ao lado do seu barco segue, noutra embarcação, o emissário normando e, mais atrás seguirei eu, incumbido do relato da missão.
Içadas as velas quadradas dos nossos barcos e apanhando o vento de feição, em pouco tempo passámos Zawayya (Lagos?) e avistámos o promontório. Ali fomos surpreendidos por uma forte tempestade que a custo ultrapassámos, ainda que com dano sobre uma das embarcações, pois as vagas eram tão altas quanto as montanhas circundantes. Passado este perigo chegámos à primeira das ilhas normandas onde aportámos para reparar o barco e descansar da fadiga causada pela tormenta. Dali até ao palácio do rei eram ainda 300 milhas que alcançámos sem sobressaltos.
O palácio localiza-se numa das muitas ilhas verdejantes onde habitam muitos pagãos, tantos que é impossível contá-los. Ali, o rei mandou que nos preparassem luxuosos aposentos e organizou uma festa para nos saudar. Dois dias depois mandou chamar-nos e, o nosso embaixador informou, que não se ajoelharia perante ele nem faria nada que não fosse de acordo com os seus costumes. O rei concordou mas mandou preparar uma entrada tão baixa que obrigava a embaixada andaluza a entrar de joelhos. Astuto, Al-Gazalī entrou sentado e logo após a passagem ergueu-se adoptando porte altivo e determinado e dirigindo ao monarca as seguintes palavras: “Que a paz esteja contigo, oh rei, contigo e com toda a tua assembleia, com respeito te apresento os meus cumprimentos. Desejo-te longa vida e que o poder nunca te abandone, aqui e na eternidade, e que continues sob a protecção divina”.
Após as suas palavras terem sido traduzidas o rei exclamou: “És o mais sábio que já encontrei entre o teu povo. Tentei humilhar-te e respondeste-me com as solas dos sapatos. Se não fosses apenas um embaixador levar-te-ia a mal”. Vitorioso Al-Gazalī entregou-lhe a carta de Abd al Rahman, que foi lida, traduzida e muito apreciada. De seguida foram entregues os presentes, que o rei normando igualmente apreciou, tendo agradecido e pedido à embaixada muçulmana que retornasse aos seus aposentos.
Quem de imediato simpatiza com o diplomata é Nud, a esposa do rei, que o convoca para o seu salão e com ele desenvolve grande amizade, levando a que passem juntos longos dias falando sobre os costumes dos seus povos e a beleza da rainha, que Al-Gazalī exalta em seus belos poemas. Porém, as frequentes visitas rapidamente excitam a curiosidade das gentes do palácio motivando conselhos dos mais chegados, que pedem prudência e distanciamento. Achando falta do companheiro de longas, desafiantes e envolventes conversas, Nud manda chamá-lo e pergunta a que se deve o seu afastamento. O poeta não oculta a verdadeira razão, que a faz rir e a leva a explicar-lhe, que nos seus costumes o ciúme não existe, e que as mulheres só estão com os seus maridos enquanto estes lhes agradarem.
Passados dois meses na corte normanda, gozando da companhia da bela rainha, Al-Gazalī regressa com a paz conquistada, passando antes por Santiago de Compostela e pelo belo reino de Castela. Apesar disso, década e meia depois os Vikings voltam a assolar a costa andaluza mas, já tinham passado mais de cem anos quando volveram à cidade de Silves onde, no nosso rio Arade, travaram dura batalha que não lograram vencer. Estávamos no ano 966 e foi a ultima vez que os Vikings foram vistos por estas bandas.

A partida do porto de Silves de Al-Gazalī, em missão diplomática à terra dos normandos no ano de 844, representa a mais antiga fonte escrita relativa a esta que foi, uma das mais distintas cidades do Gharb al-Andalus.