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Protagonistas da Conquista de 1189

 

Os cidadãos anónimos que viveram o cerco
Muitos foram os cidadãos anónimos que viveram os 45 dias do cerco de Silves, partilhando tudo o que ele representou de alterações nas suas vidas, não somente ao nível político e administrativo, mas no que toca aos sentimentos, às ligações, aos afetos ou aos ódios desses momentos tão marcantes e tão duros. Os medos e os sentimentos de todos os que experimentaram o assédio, de um lado ou do outro da muralha, são a história que conta a XV Feira Medieval de Silves, dando nota da vida desta cidade e dos factos que alteraram para sempre a vida dos seus habitantes no século XII.
De entre todos os anónimos desse período, o mais conhecido dos que passaram por Silves em 1189 terá sido cruzado e terá deixado um manuscrito que descreve a campanha militar que proporcionou a ocupação cristã. Este manuscrito que se encontra na biblioteca da Academia das Ciências de Turim, foi descoberto e adquirido em Aix-en-Provence pelo académico italiano Costanzo Gazzera, que foi o seu primeiro transcritor e editor. João Baptista da Silva Lopes, estudioso da história algarvia, também publicou este texto (pela Academia de Ciências), tendo-o traduzido para Português e acrescentado comentários. Foi, todavia, Charles Wendell David, outro investigador, quem lhe atribuiu o título pelo qual é hoje conhecido: Narratio de itinere navali peregrinorum Hierosolymam tendentium et Silviam capientium, a. d. 1189.
O Cruzado Anónimo, como ficou conhecido, descreve, num estilo muito direto e com linguagem simples, o sistema defensivo de Silves, os grupos que faziam parte da sociedade local, regista nomes de lugares no território da Xilb habitados e dá nota das particularidades da construção e da magnificência das localidades son domínio muçulmano. O seu testemunho será o resultado da observação direta, mas também de relatos que lhe terão sido transmitidos e acredita-se que teria recorrido ao saber de alguns clássicos (como Varrão e Plínio), bem como de alguns importantes estudiosos muçulmanos, como Idrisi, o geógrafo que visitou e descreveu Silves em torno ao ano 1100.
Onde e quando foi escrito o original deste texto não se sabe, pois a cópia conhecida é do início do século XIII. Do seu autor também pouco se sabe, mas acredita-se que seria de origem germânica, pois compara Silves a Goslar, provavelmente a sua cidade natal e, portanto, pertenceria ao grupo de Cruzados que, a caminho de Jerusalém, ajudaram Sancho I na Conquista da Cidade.

 

Sancho I
Outro dos que marca, indelevelmente a Conquista de Silves é D. Sancho I (1154-1212), o segundo Rei de Portugal, filho de D. Afonso I e de D. Mafalda e o primeiro monarca a intitular-se Rei de Portugal e dos Algarves. Casou com D. Dulce de Aragão (1174) e, após a morte de seu pai, foi solenemente aclamado em Coimbra. Grande administrador, protegeu a fomentou a indústria, tendo sido o povoamento das terras uma das suas maiores preocupações (criou concelhos e concedeu cartas de foral). Foi, ainda, responsável por mais um período de expansão do território, sendo o conquistador de Silves (que era na altura uma cidade com uma população de cerca de 6200 habitantes, durante o cerco aumentada com os que, vivendo nos campos envolventes, ali se refugiram em busca de proteção e uma das mais ricas do Gharb al-Andaluz) e Albufeira, que depois perderia.
Contou com ajuda de cruzados estrangeiros que se dirigiam à Terra Santa, participando na III Cruzada, após a conquista de Jerusalém pelo Sultão Saladino (Nácer Salá Adim Iúçufe ibne Aiube) para concretizar a conquista de Silves, que aconteceria a 3 de setembro de 1189, após um longo cerco. Sancho I negociou a rendição das hostes muçulmanas e concordou com a sua saída da cidade, devendo deixar todas as riquezas, levando somente uma muda de roupa. Os cruzados, a quem o rei concedera o direito a saquear a cidade vazia, concordaram inicialmente com esta proposta, mas atacaram e chacinaram os muçulmanos quando estes abandonavam a a medina.
Para além dos conflitos que liderou contra os muçulmanos, também esteve em guerra com o reino cristão de Leão.
Preocupou-se igualmente com a necessidade de tornar mais coeso o seu poder enquanto rei, e com esse objetivo lutou contra o forte poder do clero.
Apesar das suas características beligerantes era interessado na cultura e foi também poeta, tendo enviado muitos bolseiros portugueses a universidades estrangeiras.
Pai de uma descendência numerosa (de entre a qual se destacam as Beatas D. Teresa, mulher de D. Afonso IX de Leão, D. Sancha e D. Mafalda, Rainha de Castela, bem como D. Berengária, rainha da Dinamarca pelo seu casamento com Valdemar II) deixaria o trono a seu filho, D. Afonso II.

 

Abu Becre Ibn Wazir
Do lado oposto, à frente das tropas muçulmanas se encontrava o bravo Abu Becre Ibn Wazir Al-Xelbi (ou Uazir), a quem os cruzados chamavam Albainus. Era filho de outro Ibn Wazir, de Évora, em tempos partidário de Ibn Qasí, personagem que foi figura central da Feira Medieval de Silves de 2016.
A sua ação no cerco da cidade, dizem algumas fontes, poderá ter sido resultado de inexperiência, de não terem sido fechadas as fronteiras e do medo, que não o levou a contra-atacar, mas é descrito por autores muçulmanos como um guerreiro hábil e experimentado e que foi, e, 1191, muito preponderante na reconquista da cidade pelos árabes, liderada por Yakub al-Mansur (que em 1189 estava no Norte de África). Após a rendição, Ibn Wazir é poupado e segue para o exílio em Sevilha.
Permanece uma personagem pouco conhecida e de quem pouco se fala, mas que importa recordar quando relembramos este episódio tão importante da história de Silves.


BIBLIOGRAFIA:
Serrão, Joel (dir.), 1976. Pequeno Dicionário de História de Portugal, Lisboa: Iniciativas Editoriais.
Serrão, Joaquim Veríssimo, 1978. História de Portugal, Volume I: Estado, Pátria e Nação (1080-1415), 2.ª ed., Lisboa: Verbo, In Portal da História (http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/sancho1.html, consultado a 12/06/2018).
Pereira, Armando de Sousa, 2010. “Silves no Itinerário da Terceira Cruzada: um Testemunho Teutónico”, in Revista Militar, Nº 2496, janeiro de 2010 (https://www.revistamilitar.pt/artigo/538, consultado a 12/06/2018).