Site Autárquico Silves

Tomada de Silves dia após dia

Dia 10 de agosto
Estamos no dia 20 de julho do ano de 1189. Do alto na nossa alcáçova observamos, muito ao longe, em local de onde certamente se avista o mar, mais de trinta naus. Parece-nos ser a terceira cruzada que, tivemos notícia, se deslocaria para a Terra Santa. Devem preparar-se para nos atacar. Os Cristãos vão tentar tomar a cidade. Valha-nos Alá!

Dia 11 de agosto
O rio Arade está adoentado e em frente à cidade mostra já pouco fundo, os cruzados não vão conseguir chegar aqui naqueles barcos de tão grande calado. Mas atenção que chegam forças por terra, parece que já ultrapassaram a muralha da cidade baixa. Não vamos capitular, jamais conseguirão entrar na cidade alta pois as nossas muralhas são potentes e inexpugnáveis.

Dia 12 de agosto
Hoje, Silves amanheceu calma, temos a cavalaria cristã estacionada na parte poente da cidade mas vemos muita movimentação na zona ribeirinha. Parece que trabalham em máquinas de guerra e já ontem tentaram minar a couraça. Esperemos que não a destruam, pois ficaremos sem abastecimento de água.

Dia 13 de agosto
O sol já vai alto e a labuta dos cristãos não pára. Há pouco atingiram o nosso muezzin que, do alto do minarete da mesquita do arrabalde, chamava para a oração do meio-dia. Que crueldade! O povo continua a sua rotina mas está muito preocupado. As mães já não permitem que os filhos se desloquem à madraza para a aprendizagem das letras e do Corão.

Dia 14 de agosto
Os Cristãos não param de nos atormentar e por duas vezes minaram a couraça mas sem êxito. Quando ela se for morreremos todos pois a água da pequena mina do nosso castelo está quase seca. As famílias estão em casa, amedrontados, e os mantimentos já começam a escassear nos mercados. Que Alá nos ajude.

Dia 15 de agosto
Há dezoito dias que as tropas cristãs nos cercam, há fome e, alguns dos nossos, os mais frágeis, já pereceram. Não conseguimos levá-los à sua morada final pois os cemitérios estão fora de portas. Ontem, quando o sol já se punha, conseguiram deitar a baixo a nossa couraça pelo que a água já não chega à medina.

Dia 16 de agosto
Estamos desalentados, as máquinas de guerra provocaram grandes rombos nas muralhas e alguns elementos do exército inimigo tentam trespassá-la, mas estamos a ripostar com todas as nossas forças, pegando em armas para os repelir. Com a graça do nosso deus, havemos de vencer. Xilb ainda é a nossa Xilb!

Dia 17 de agosto
Hoje é dia 3 de setembro, o dia nasceu solarengo mas os nossos corações estão cinzentos e sem alegria. O medo e a doença apoderaram-se do nosso povo. Muitos de nós morreram, pois os mantimentos já não existem e quem sobreviveu está doente e sem ânimo. Parece que não teremos alternativa à rendição. Tentaremos junto de D. Sancho obter alguma benevolência.

Dia 18 de agosto
D. Sancho é benevolente e prometeu que nos deixaria com os nossos pertences mas parece que os cruzados não concordam e querem saquear toda a cidade. D. sancho chegou até a prometer dez mil cruzados de oiro, que depois elevou para vinte, mas sem êxito. Os cruzados fazem-nos sair da cidade apenas com o que temos vestido.

Dia 19 de agosto
Que nos deixem viver na nossa amada XILB ainda que sob o seu domínio. Amamos a nossa cidade, envolta em terrenos férteis e campos repletos de árvores frondosas, mercados bem abastecidos, porto dinâmico e fácil acesso aos mares. Mares por onde circulam produtos e ideias. Terra de poetas, terra de cultura, terra de homens e mulheres laboriosas, terra próspera e bela.
O sol continuará a brilhar nesta terra, hoje e sempre, seja qual for a ideologia e a religião.