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Bastidores: criação da imagem e testemunhos

Na sessão fotográfica (que este ano decorreu na Casa da Cultura Islâmica e Mediterrânica, com a colaboração do Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves - CELAS) que permitiu a criação da imagem da XV Feira Medieval de Silves procurou-se criar uma imagem vívida e dramática de dois guerreiros, um cristão e um muçulmano, que certamente, ao longo dos vários meses que durou o cerco à cidade (de junho a setembro, mais precisamente até dia 3 desse mês) e durante o confronto se terão enfrentado. A determinação de ambos os lados em confronto está retratada, bem como a presença de todos os demais que viviam na cidade ou que seguiam os combatentes, personificados pelo místico rosto que aparece quase como que uma sombra e as mulheres e crianças, personificados pela jovem que olha o infinito, em busca de melhores dias.


«Creio que a imagem deste ano é muito poderosa e fará, por certo, trabalhar a imaginação de quem a vir, convidando a que possam estar em Silves, de 10 a 19 de agosto, na XV edição deste evento», diz Rosa Palma, Presidente da Câmara Municipal de Silves. «Queríamos, precisamente, continuar a dar uma dimensão de grande dramatismo, diria mesmo cinematográfica, a esta criação, já que a história de Silves, cheia de episódios grandiosos, personagens de grande poder e influência, lendas e poesia, nos permite explorar com muita força tudo o que diz respeito à produção visual», reforça a autarca.


André Boto, que volta a ser o criativo por trás deste trabalho, diz a propósito das suas preocupações ao preparar este trabalho: «Penso que em primeiro lugar é preciso ter em conta o objetivo para o qual se destina este tipo de imagem. Deve ter impacto suficiente para "agarrar" o espectador em poucos segundos ou frações de segundo. É importante ter em mente que é uma imagem comercial, e a forma de chegar à maior tranche possível de público é ter impacto e características que potenciem que a imagem comunique com a maior franja possível de público, já que o evento pretende atingir um vasto leque de pessoas em termos de idades».


Nesta medida, o fotógrafo considera que «o tema deste ano abriu espaço para algo importante em termos de uma comunicação visual eficaz, que é a ação», pois, na sua opinião, uma vez que está relacionado com a conquista, «pede movimento/ação, expressões fortes e consequentemente uma maior comunicação com o espectador».


«O maior desafio este ano», diz André Boto, «era encontrar as personagens que mais facilmente encarnassem o perfil de verdadeiros guerreiros em termos de fisionomia e também de simulação de movimentos/posições para a imagem final». E a opinião de todos os que têm visto a imagem da XV Feira Medieval de Silves é unânime e coincidente com a do seu autor: «Dificilmente poderíamos ter tido melhores figurantes para conseguir isso. Temos uma imagem muito cinematográfica!» E mais uma vez, a autarquia recorreu a voluntários para a criação da imagem do evento, facto que André Boto vê como uma mais-valia: «Penso que é uma opção muito inteligente, pois a utilização de "pessoas reais" (não atores) faz com que o potencial visitante da feira tenha de certa forma uma relação de maior proximidade com o próprio evento», refere e saliente que esta «é uma opção que muitas grandes marcas estão a tomar para ter maior proximidade com os seus clientes e penso que também neste caso da Feira Medieval de Silves é uma forma de estabelecer laços emocionais com quem visita o evento».


Rosa Palma defende que esta estratégia começa, também, com escolha do próprio fotógrafo: «O André Boto trabalha connosco há já alguns anos, é alguém que viveu e cresceu na cidade de Silves e, portanto, conhece o espaço, os monumentos, as pessoas e tem um olhar muito particular sobre a Feira Medieval, como tem sido possível ver», diz a autarca e reforça: «O que nos interessa é poder envolver as pessoas, fazê-las participar naquele que é efetivamente o maior evento da cidade e esse envolvimento apenas reforça aquilo que queremos: que a nossa identidade seja profunda e evidentemente vincada na forma como o evento decorre. É isso que faz desta feira uma feira diferente das demais!»


Os próprios modelos, que ao longo dos anos foram trabalhando com a autarquia e com o fotógrafo neste evento estão de acordo. João Vitorino, que em 2017 foi o rosto de Al-Mutamid e em 2013 também participou sem personagem definida, diz: «A Feira é uma das imagens de marca da cidade e as pessoas que cá vivem têm muito orgulho do evento. Isso nota-se bastante no dia da sessão, no qual o entusiasmo dos participantes é enorme. É algo mais autêntico que a utilização de profissionais.»


Raquel Martins, que participou em 2014 e 2015 diz mesmo que «sendo natural de Silves e tendo crescido a vida inteira nesta cidade, constituiu um grande orgulho poder dar cara aos eventos que aqui são realizados». E mesmo quem não é natural da cidade, mas vive o evento, como é o caso da Ana Castro, passa «a ver a feira como algo familiar, do qual sinto um orgulho imenso».


Bruno Guerreiro, que este ano encarna o guerreiro cristão, também concorda: «É uma forma de integrar as pessoas da terra e é nítido que tem sido uma aposta ganha! qualquer cartaz dos últimos anos está ao mais alto nível de qualidade, o que faz de simples figurantes voluntários estrelas de cartaz. Já recebi comentários que estamos ao nível de um cartaz Hollywood!»


O trabalho de preparação da imagem da Feira Medieval de Silves começa bem antes do evento e é dividido em várias fases, para que tudo permita o melhor resultado final. André Boto destaca, todavia, a importância da «fase de preparação inicial», para o «sucesso do resultado final». Após a definição do tema «há uma fase de pesquisa onde se procura o que já foi realizado nesse âmbito, que é importante para saber e também para procurar novas ideias que possam resultar em termos de imagens», diz o fotógrafo. «A seguir vem a fase de escolher as personagens/figurantes que se enquadrem nas características de cada personagem que vai ser representada. Habitualmente há uma fase de esboço, em que as ideias são apresentadas em reunião e depois segue-se a fase da sessão fotográfica com toda a equipa e figurantes».
«É uma experiência fantástica, muito divertida», diz João Vitorino a propósito da sessão fotográfica da Feira Medieval de Silves. «O dia da sessão é sempre emocionante, partilhar esses momentos com os restantes figurantes, staff e fotógrafo – que é de um profissionalismo brutal, nos deixa-nos extremamente à vontade - é uma experiência e um tempo muito bem passado». Mas retratar um personagem que muitas vezes não se conhece muito e cuja história sabemos dos livros não é um processo fácil. «É desafiante conseguir passar emoções em apenas um frame, sem qualquer suporte de palavras, sons ou gestos», salienta João Vitorino, que diz ter sido esse o seu «maior desafio».


Para Ana Castro, participante em 2016 e 2017, este trabalho é profundamente aliciante. A modelo considera que o fotógrafo «transforma a sessão fotográfica em autênticas obras de arte», pois consegue que todos deem o máximo da sua «expressividade e qualidade». «Adorei participar e estarei sempre disponível para o fazer, pois é um desafio representar um evento grandioso como este. O maior desafio é andar na rua e ver as minhas fotos e pensar: “mas eu sou mesmo aquela???"», conclui.


A última fase é a mais solitária, já que nela o criativo vai dar forma à imagem final, que nada tem a ver com aquilo que se vê na sessão fotográfica. Esta é a «fase mais demorada e aquela em que todos os planos feitos e imaginados anteriormente ganham forma», explica.


Naturalmente, a equipa que trabalha neste projeto ajuda o fotógrafo a ter um processo mais fácil de criação. «É sempre um trabalho em equipa», diz André Boto e este ano integraram o grupo de trabalho vários modelos: Bruno Guerreiro (o cristão), António Santos (o muçulmano), Catarina Marreiros (a jovem) e Eduardo Ramos, o músico silvense que, mais uma vez, se associa a este evento, onde também atua todos os anos. Anita Oliveira (do salão de cabeleireiro Anita, em Silves) realizou, igualmente por mais um ano, a caracterização dos personagens – cabelo e make up -, com grande qualidade. Anita Oliveira formou-se na Alemanha e exerce a profissão há mais de 30 anos, realizando formações constantes, para aperfeiçoamento da técnica e é, também, silvense e voluntária, o que continua a enquadrar-se no espírito de trabalho preconizado. Este ano é, também, um dos rostos da Feira Medieval de Silves, encarnando uma “curandeira”, que com as suas mezinhas trataria dos muitos soldados feridos na conquista.
«Há algo que tenho a destacar que é a chave, não só para este ano, mas para esta relação/parceria ao longo dos últimos anos, que é a confiança/liberdade que tenho vindo a receber por parte do Município de Silves, da Sra. Presidente da Câmara Rosa Palma, da Sra. Vereadora Luisa Conduto Luís, e claro, da Coordenadora do Gabinete de Informação e Relações Públicas, Sandra Moreira, que tem acompanhado de perto todas as edições e fases do trabalho», diz André Boto. «A estas pessoas e a todas as restantes que direta ou indiretamente fazem parte da nossa equipa, o meu obrigado, pois é com elas que se torna possível colocar em prática ideias diferentes e evoluir ano após ano».


E depois de criada a imagem, é mesmo esperar as reações e muitas são as histórias para contar, todas elas divertidas e reveladoras do impacto que este evento tem. João Vitorino, por exemplo, conta: «Sou residente no Algarve, no concelho de Silves, há apenas seis anos e no meu segundo ano por cá fui imagem da Feira. Sou originário de Lisboa e no início desse verão recebi várias chamadas e mensagens dos meus amigos de lá, pois estavam a ver-me nos cartazes que foram colocados no metro de Lisboa ou nos pacotes de açúcar nos cafés. Foi uma surpresa muito gira. E em 2017 foram várias as vezes que fui reconhecido na feira e que me pediram para tirar fotografias».


«Quando participei na criação da imagem para a Feira Medieval fui reconhecida nos mupis espalhados pelo concelho de Silves e todas as pessoas me deram um bom feedback, dizendo que as imagens dos cartazes estavam bastante apelativas, bonitas e bem trabalhadas», recorda Raquel Martins, cujo rosto foi um dos mais marcantes do evento.


Ana Castro também revela um episódio curioso: «O meu marido, que faz safaris, durante um passeio à Ria Formosa e ao explorar toda a aquela zona deparou se com um outdoor da Feira Medieval onde estava a minha cara!!! De imediato fez sair todos os turistas do jipe para que vissem a sua esposa naquele outdoor....Claro que ninguém ACREDITOU!!!! até que ele foi obrigado a mostrar a nossa foto juntos em casa!»
O “cristão” da imagem da XV Feira Medieval também já tem histórias para contar: «Fiz a sessão sem que ninguém próximo o soubesse. Quando foi lançada a imagem no Facebook, a minha mãe comentou que o “moço” do cartaz era parecido comigo», revela bem-disposto e ainda conta que o mais engraçado foi que «os amigos aos quais disse que, quanto mais partilhassem, mais dinheiro eu ganhava», acreditaram, apesar de não ser verdade e «partilharam muitíssimo» a imagem deste ano!


«O que me fez aceitar ser imagem da Feira foi o quanto esta me marcou aquando da minha primeira visita e para mim é um dos melhores acontecimentos culturais e lúdicos do Algarve», diz João Vitorino, que se assume como um «fã», que «raramente falta um dia». Aliás, Bruno Guerreiro também o diz, já que considera que esta é «a melhor feira medieval do país e quem tiver dúvidas visite-nos em Silves, de 10 a 19 agosto».


Noites mágicas e muita animação, sempre com a história da cidade como envolvente, é o que espera todos os visitantes em mais uma edição, a XV da Feira Medieval de Silves.