Uma estória dentro da História...

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Numa era em que se repetem por todo o País recriações de diferentes períodos da História Nacional, a cidade de Silves proporciona a todos os visitantes, participantes e habitantes, durante sete dias, o regresso ao período entre os séculos VIII e XIII.

>Em cada edição da Feira tentamos enfocar um período específico, mais ou menos lato, da história da região, que se materializa na realização de pequenos apontamentos cénicos, com lugar em distintos locais da área ocupada pelo evento. Especial atenção é dada ao período de dominação muçulmana, cerca de cinco séculos de crescimento urbano, desenvolvimento socioeconómico, esplendor cultural e tolerância religiosa.

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>As fontes históricas e a investigação arqueológica permitem-nos, hoje, ter já um retrato muito aproximado do que teria sido a cidade de Silves em tempo de “mouros”. Podemos garantir que, neste período, este espaço veio a configurar uma urbe de dimensão assinalável, provida de mesquitas, banhos, mercados, engenhosos sistemas de captação de água e de um potente sistema defensivo, que a protegeu durante mais de cinco séculos das investidas cristãs e dos ataques da pirataria normanda. Coincidentemente, é na sequência destes ataques, que o poeta Algazalí parte do porto de Silves, no ano de 844, para tentar negociar a paz. Trata-se da referência textual mais longínqua até hoje conhecida e remete, desde logo, para a importância da madinat Xilb (cidade de Silves), já nessa época.

>Terá sido o seu porto e os estaleiros de construção naval, que motivaram um importante crescimento económico e a colocaram em contacto com o mundo civilizado de então, nomeadamente com toda a costa mediterrânica, com quem troca produtos e ideias. Este progressivo florescimento dá a Silves, no século X, o estatuto de capital da província de Ocsonoba – território que corresponde ao atual Algarve.

>Alterações geopolíticas levaram, no século XI, à fragmentação do califado de Córdova e à constituição de uma série de reinos independentes. Silves autonomiza-se e cresce. Nesta época a cidade já ultrapassou as muralhas da Almedina e espraia-se pela zona ribeirinha. O território de si dependente corresponde, grosso modo, ao atual barlavento algarvio. Mais tarde, é incorporada no imenso reino de Sevilha e é seu governador Al-Muthamid, tão dado ao combate político-administrativo, como à poesia e aos prazeres da vida. A ligação da cidade de Silves às artes e ao conhecimento é uma tónica, que se mantém ao longo dos vários séculos de ocupação. Diversos estudos onomásticos permitiram reconhecer origens árabes e iemenitas em muitas das famílias que por aqui passaram e permaneceram, o que explica o elevado nível intelectual dos seus habitantes, tantas vezes expresso nas fontes e materializado na poesia e nos tratados históricos e científicos que nos legaram.

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>Durante os séculos XII e XIII o mundo islâmico reunifica-se e o Gharb é sucessivamente governado por Almorávidas e Almóadas. São tribos berberes provenientes do Norte de África, menos cultas, mais intolerantes e mais aguerridas. Nesta altura Silves vê reforçadas as suas defesas, porque também as investidas cristãs se intensificam. O avanço da reconquista e a fuga de muçulmanos para as zonas mais meridionais terá contribuído para que o número de habitantes da cidade tivesse aumentado ainda mais e fosse ocupado o seu espaço ocidental. No final do século XII Silves abrangia cerca de 18 hectares e a sua população rondaria os 6 000 indivíduos. Desta fase consta um relato fiel do que era a Xilb. Enquanto decorria o cerco da cidade, nos meses de Agosto e Setembro do ano de 1189, um dos cruzados que nele participava dedicou-se à descrição do seu sistema defensivo e ao relato dos eventos que iam ocorrendo. A conquista cristã concretizou-se no dia 3 de Setembro, mas foi efémera. Em 1191 a cidade torna ao poder muçulmano e assim se mantém por mais algumas décadas.

>Em torno ao ano de 1248, quando a cidade era governada por Al-Mafhut, D. Paio Peres Correia consegue definitivamente tomar Silves para o rei D. Afonso III. De todos estes momentos de esplendor e grandeza existem vestígios arquitectónicos e objetos do quotidiano, que exibimos nos nossos núcleos museológicos.

>Esta recriação, materializada na Feira Medieval (que vai já na sua VIII Edição), surgiu da necessidade de se interpretar os tempos gloriosos desta cidade histórica e de proporcionar toda a vivência desta época, num cenário natural único, constituído pelo traçado característico do tecido urbano e pela imponência dos seus monumentos.

>Como cidade cosmopolita da época medieval, Silves foi o retrato típico da vida quotidiana de uma cidade comercial, política e culturalmente relevante, onde se viveu o esplendor de um verdadeiro burgo medieval e, ainda hoje, apesar das alterações sofridas ao longo dos séculos, nela se consegue sentir uma atmosfera única, que nos recorda os habitantes e factos de outrora e na qual se alicerçam importantes traços da nossa identidade e memória colectiva.
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